Agência Estado – Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas

“Boa noite, pessoal, desculpe o susto, não foi nossa intenção. Somos um grupo de dança urbana que costumava se apresentar em festas e nas ruas e agora está mostrando sua arte no metrô. Aquele que não gostar, pode levantar a mão que passamos para o próximo vagão. Amém.”

É assim que Aline Tofalo, de 25 anos, Danilo Martins, de 29, Kennedy Ronaldo, de 25, e Robert Orlando, de 25, se apresentam quando as portas do metrô se fecham. Eles são 4 dos cerca de 20 jovens que participam do grupo de WhatsApp Hip Hop no Trem, que, sem emprego formal, passou a dançar dentro dos vagões em movimento.

Vindos de diferentes regiões de São Paulo, eles se conheceram em festas no centro da cidade e vias do entorno da Rua 24 de Maio e da Galeria Olido – ponto de encontro de gerações de rappers, MC’s e entusiastas da cultura de rua. Cansados de procurar por trabalho com carteira e avessos ao ambiente de escritório, os jovens marcam os encontros para as performances no metrô via WhatsApp – e ganham de R$ 50 a R$ 100 por dia cada um.

Com um pequeno som portátil dentro do vagão, Martins faz a apresentação do grupo assim que as portas se fecham. Seguem-se alguns segundos de silêncio. Ninguém levanta a mão se manifestando contra a apresentação e, então, o show começa. O aparelho de som é ligado e a apresentação começa estrategicamente no centro do vagão, onde os passos de street dance são mais facilmente realizados.

Orlando é o mais performático dos quatro integrantes da trupe. Ele dá saltos mortais, às vezes duplos, em um estilo meio “matrix” de dança, em que simula movimentos em câmera lenta, com o corpo todo curvado, beirando o chão do trem.

Única mulher do grupo, Aline conta que vários fatores influenciam as apresentações e o retorno financeiro. “A gente depende muito da época do mês, do horário, do dia da semana. Também depende de em quantas pessoas estamos, o volume do som, a interação com o público. Tem gente que não tem como contribuir financeiramente, mas dá uma palavra de incentivo que já muda o nosso dia.”

No dia em que a reportagem acompanhou a apresentação, a maioria dos passageiros interagiu e filmou o grupo com o celular. Uma passageira pediu uma conta bancária para fazer um depósito, porque não tinha dinheiro vivo.

Também sem trabalho fixo, Aline tem outras ocupações além da dança: trabalha como modelo e faz maquiagem para festas e videoclipes de música. Ela também tenta garantir seu lugar ao sol no mundo dos influencers com seu Instagram, que tem 18 mil seguidores.

A qualquer hora

Os jovens se revezam nas apresentações. Tem quem dança de manhã e quem só pode à tarde ou à noite. Os integrantes se apresentam em todas as linhas, mas é na 2-Verde que o faturamento é maior. “Os vagões ficam cheios de gente saindo da faculdade à noite, e eles adoram ver. Na linha 2-Verde o pessoal apoia muito a cultura”, diz Martins.

O jovem tentou trabalhar em um emprego com carteira assinada, com horário para entrar e sair. Gastava a sola do sapato nos corredores e banheiros de um shopping na zona norte. Tinha crachá, cargo de auxiliar de limpeza e não precisava correr de seguranças. Mas a cabeça e os pés estavam na dança.

Deixou o emprego e passou um tempo dançando em cruzamentos da cidade. No início do ano, percebeu que os vagões do Metrô poderiam ser palcos informais.

Procurado, o Metrô afirmou, em nota, “que permite e incentiva a apresentação de músicos e dançarinos em locais apropriados e de forma coordenada. No entanto, a prática de dança dentro dos trens é proibida”. A nota diz ainda “que os músicos não podem solicitar ou receber contribuições do público.”