Wellington Alves – Foto: Fábio Arantes/Secom

O Theatro Municipal de São Paulo é a maior referência cultural e arquitetônica dos paulistanos. Muitos acreditam que o local é inacessível para as camadas populares pelos preços dos espetáculos. Entretanto, o espaço tem uma vasta programação de apresentações gratuitas, além dos eventos com preços baixos.

Em 2018, o índice de peças sem cobrança de ingresso disparou 590% em comparação ao ano anterior. Foram 207 espetáculos gratuitos no ano passado, ante 30 em 2017. Entre 2014 e 2017, a média de apresentações grátis foi de 40 por ano. A mudança em 2018 traz um novo perfil de público ao Theatro Municipal, com abertura para outras formas de arte, além das óperas e das orquestras. No ano passado, mais de 24 mil pessoas foram beneficiadas pelas gratuidades.

Em 2019, até 29 de julho, foram apresentados 85 espetáculos sem cobrança, medida que contemplou 11.645 pessoas. Os dados foram repassados pelo diretor de gestão da Fundação Theatro Municipal de São Paulo, Homero Souza de Freitas Alexandre, através da Lei de Acesso à Informação.

A produtora Caroline Lucchesi foi uma das beneficiadas pela nova política. Ela nunca tinha ido ao Theatro Municipal, mas soube da peça “O Pequeno Príncipe Preto”, que seria apresentada gratuitamente no Dia da Consciência Negra e não teve dúvida. “Vi o evento pelo Facebook e fui com uma amiga. O Theatro tem uma história para a cidade. É impactante”, afirmou.

A mudança no perfil dos espetáculos exibidos no Theatro Municipal coincide com o período que o Instituto Odeon assumiu a gestão do local, em setembro de 2017. A expectativa é que a frequência de peças gratuitas seja mantida nos próximos anos. Quem quiser acompanhar a programação do local é só acessar o link encurtador.com.br/oGK67.

Diretor conheceu o teatro graças a peça gratuita

Hugo Possolo entrou pela primeira vez no Theatro Municipal há 40 anos. Ele era um adolescente de 17 anos e teve a oportunidade de assistir, gratuitamente, a peça Abajur Lilás, de Plínio Marcos. “Fiquei vislumbrado. O Theatro era focado nas peças teatrais nos meses de janeiro e fevereiro”, recorda o atual diretor artístico do local.

Possolo nutre grande afetividade com o Municipal. Ele foi um dos fundadores dos Parlapatões, que teve início justamente nas escadarias do Theatro. Se apresentou no Municipal, dirigiu peças e, desde o início deste ano, é o diretor artístico. “É uma imensa realização porque consigo enxergar o Theatro como público, artista e gestor”, afirma.

O diretor acredita que o Theatro Municipal, apesar do maior foco nos espetáculos de ópera e canto lírico, deve ser aberto a todas as artes. “O objetivo é a excelência artística”, explica. Sobre as críticas que os movimentos culturais têm sofrido nos últimos meses, em especial a Lei Rouanet, Possolo afirma que o crescimento do público no Municipal é uma resposta positiva. “O nosso papel é dar valor à arte. Esse é um pensamento que beneficia a população.”

Relação entre Instituto e Prefeitura é marcada por polêmicas

Apesar da expansão dos espetáculos gratuitos no Theatro Municipal ser relevante do ponto de vista da política pública, o Instituto Odeon, responsável pela gestão do espaço, encara sérios problemas com a Prefeitura de São Paulo.

O antigo secretário municipal de Cultural, André Sturm, chegou a rescindir o contrato com o Odeon e marcou as demissões dos funcionários para 9 de fevereiro. Contudo, o novo secretário, Ale Youseff, revogou a ordem e manteve o convênio entre as partes para a gestão do Theatro.

Um edital para contratação de outro organização social para gerir o Theatro foi publicado pela Prefeitura, mas acabou suspenso pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo. O governo municipal considerou irregulares as prestações de contas apresentadas pelo Odeon em 2018. Em junho, o Ministério Público do Estado de São Paulo abriu inquérito para investigar o contrato entre o instituto e a Prefeitura.

O diretor artístico, Hugo Possolo, foi contratado em fevereiro, após o período de maior tensão com o poder público. Ele afirma que as “devidas auditorias” devem verificar o passado e garante que isso não afeta o seu trabalho. “Entrei com a missão de fazer o Theatro seguir em frente e não se deixar abalar com o problema anterior”, conta.

Questionada, a Prefeitura não se pronunciou até a conclusão desta edição.

Preços populares também garante maior acesso

A expansão dos espetáculos gratuitos aconteceu pela criação de três projetos: happy hour (duas segundas-feiras por mês), Quartas-musicais e Meu Primeiro Municipal (aos sábados). Nas grandes apresentações também são oferecidas bolsas para ONGs e alunos de escolas públicas. Ainda há os ensaios abertos de óperas e balés. Existem também os ingressos populares, a R$ 5, para alguns espetáculos. 

Segundo Hugo Possolo, diretor artístico do Theatro Municipal, a oferta de peças gratuitas cresceu com o aproveitamento dos alunos das escolas de Dança e Música, mantidas pelo Theatro. “Esses grupos se apresentam no salão nobre do Municipal, normalmente para cerca de 200 pessoas”, revela.